Tool - Lateralus (2001)


Lançamento: 15 de maio de 2001
Duração: 78’:58”
Gravadora: Volcano Records
Produtor: David Bottrill and Tool


Se você gosta de um som redondinho e linear, com melodias fáceis e sacadas simples, esse não é seu disco. Aliás, nunca ouça nada do Tool. A banda tem um talento incrível para assinaturas de tempo estranhas e complexas, bem como para riffs e licks minimalistas e que remetem a ambientes sombrios e caóticos. Sendo definido por uns como metal progressivo, por outros como art rock o Tool não é um grupo fácil de se rotular. A musicalidade aqui é profunda, a proposta estética é sutil e obscura. Coisa séria mesmo. Fãs de Green Day, entrem em desespero.


Lateralus ( a pronúncia correta é /lætərˈælɪs/) é o terceiro disco do Tool e radicaliza bastante a proposta sonora do grupo. Mais arrastado que o anteriores, o disco é recheado de músicas longas e ritmos incomuns. A performance do baterista Danny Carey é impressionante. Carey utiliza a percussão com um estilo quase ritualístico, fluido e ao mesmo tempo complexo, reproduzindo formas geométricas de forte simbolismo no mundo do ocultismo. O resultado é uma bateria onipresente mesmo nas paradas e nos silêncios da música, hipnótica, sedutora, como se conduzisse uma dança macabra.


A bateria conduz o instrumental que parece crescer em círculos, formando uma espiral que traz a sensação de esbarrar em seus limites a todo momento, como se provocasse algo...a própria morte, talvez. O disco parece nos lançar num violento turbilhão, repleto de sensações estranhas. O guitarrista Adam Jones abusa de breakdowns e riffs intricados, e já mostra a que veio na primeira das 13 faixas, The Grudge. Com seus 8’:36’’a música inicia com linhas de baixo muito bem feitas, num jogo de pergunta e resposta, cortesia do homem das quatro cordas Justin Chancellor. A letra é inspirada no romance de Nathaniel Hawthorne, A Letra Escarlate (The Scarlet Letter), e é uma reflexão sobre culpa, pecado, redenção. O vocalista Maynard James Keenan dá seu show de costume. Não há como negar que Keenan é uma das figuras mais criativas e representativas da música pesada nos últimos anos. A personalidade que impõe ao vocal, além da postura de palco e de suas letras transgressoras o transformaram num dos elementos principais da arquitetura sonora do Tool. Num estilo tão carente de músicos geniais o Tool tem a sorte de reunir quatro deles.


Eon Blue Apocalypse é um interlúdio musical dedicado à Eon, o cão de Jones que morreu de câncer ósseo. The Patient é negativista e temperamental, obra de uma banda madura e que não precisa recorrer a artificialismos pra criar. Nessa canção fica clara uma das propostas do disco. O encaixe perfeito, simétrico, hermético de letra e música. Ouvir as letras é uma experiência musical tão grande quanto a parte propriamente musical do disco.


Mas após o choque de Patient segue Mantra, um interlúdio ao estilo “missa negra”, em que efeitos aplicados aos sons de um dos gatos de Maynard sendo carinhosamente “espremido” pervertem o som universal do OM. Tudo isso cria o ambiente perfeito para uma das melhores faixas do álbum, a vencedora do Grammy pela melhor perfomance de metal, Schism. Uma faixa minimalista, com tempos incrivelmente complexos e várias camadas sonoras que se sobrepõem num crescendo perturbador. A letra fala de simetria, separação, identidade, comunicação. Ao mesmo tempo que fala de duas pessoas traz em si uma inspiração universal, representada pelo clima cósmico que a guitarra de Jones constrói. Schism foi o primeiro single e o primeiro vídeo de Lateralus.

Quando Schism termina temos Danny Carey soprando em um tubo e gerando sons budistas que servem de cama para Parabol. Com letra e melodia mântricas ela é uma introdução para uma das mais completas músicas do Tool, Parabola. O vídeo promocional reúne ambas as peças, deixando loucos os programadores da MTV que tiveram de encaixar um vídeo de mais de 9’ na programação. Assim como o vídeo de Schism é repleto de imagens abstratas e cenas perturbadoras, dirigidas por Adam Jones. A música é sublime, mantendo o clima religioso que se inicia com Parabol. A letra fala de libertação do corpo, num sentido budista/platônico (Platão dizia que o corpo é uma prisão para a alma, lição retomada depois pelo cristianismo) e o vocal de Maynard é inteiramente presente nessa canção. Parabola foi o segundo single de Lateralus.


Em meio a tantos climas minimalistas e viagens alguém poderia sentir falta daquele Tool raivoso e virulento que Aenima e Undertow traziam. Mas somente até ouvir Ticks & Leeches. O Maelstrom sonoro te lança pra todos os lados. Maynard canta como um possesso, e Carey nos presenteia com uma de suas mais inspiradas apresentações. Não é a toa que essa faixa deu a Carey o prêmio de melhor perfomance de bateria numa lista de 100 melhores realizada pela Digital Dream Door. O álbum ocupou a mesma posição numa lista de melhores baterias em disco.


Lateralus, a faixa título, traz de volta o minimalismo e nos pede para “sentir o ritmo”. A figura rítmica dessa faixa é construída sobre a famosa sequência de Fibonacci. A letra é escrita no mesmo padrão, e os riffs são hipnóticos. Jones desconstrói os próprios timbres de uma forma inteligente e forte. O nome da faixa e do disco é uma combinação de Vastus Lateralis, o nome de um músculo da perna humana e Lateral Thinking, um método de solução de problemas complexos através de abordagens criativas. Mente e corpo mesclados. A letra trata da obsessão humana por conhecimento e compreensão do universo, conclama a uma maior conexão com o próprio ser e com o cosmo, mas sem baboseiras hippies ou ladainhas de nova era. Aqui a coisa é séria, já disse.

Os vocais mântricos retornam em Disposition, faixa que poderia estar perfeitamente em um disco do A Perfect Circle, projeto paralelo do Maynard, e que traz muitos sons minimalistas e psicodélicos. Reflection é a maior faixa do álbum, com impressionantes 11’:07’’ repletos de loops e “efeitos borracha” que resultam num instrumental circular e psicodélico. É a faixa mais progressiva do disco, remetendo claramente a Pink Floyd e King Crinsom, influências óbvias da banda. Triad é uma instrumental totalmente maluca, pesada, selvagem. Uma música que soa incontrolável. A impressão que passa é que ela sairá do controle dos próprios músicos. O trabalho percussivo é novamente exemplar e o ouvinte chega na última faixa, Faaip de Oiad, precisando tomar fôlego. O nome da música é o termo enoquiano para “Voz de Deus”. O idioma enoquiano foi retirado dos diários do John Dee, filósofo e ocultista do século XVI, e seu amigo Edward Kelley, segundo eles uma língua ensinada por anjos herméticos. A letra da faixa é, por sua vez, o sample da rádio Coast to Coast, que recebeu uma ligação durante o programa Art Bell Show, em que um homem se dizendo um operário da Área 51 tentava avisar sobre uma série de desastres que estariam para acontecer. Antes do estranho terminar sua fala a rádio saiu do ar por cerca de 30’. Várias semanas depois o tal empregado ligou novamente se desculpando pelo factóide, mas alguns fatos inexplicáveis teriam ocorrido nesse período de tempo. Bom, vai saber.


Novamente, se você gosta de coisas alegrinhas e simples nunca ouça esse álbum. Com ele o Tool se eleva a uma das bandas fundamentais da música pesada. Original, contundente, provocadora e violentamente transgressora. São bandas como o Tool que justificam a existência do metal e da música artística e progressiva. O resto é pastiche.
2 Responses
  1. Hugo Says:

    Excelente lembrança do Tool Ramon! Sem sombra de dúvida, uma das bandas mais originais e criativas dos últimos tempos. Adoro!! Belo trabalho!!


  2. Frann. Says:

    Sao incríveis e muito inteligentes, criativos!!.. sempre com belos trabalhos!!. Adoro!! ;))