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Nevermore - Dead Heart in a Dead World (2000)



Ano de lançamento: 2000
Gravadora: Century Media Records
Produção: Andy Sneap
Duração: 56:44




Essa série de resenhas não poderia começar de melhor forma, a década 00 também não. Dead Heart In a Dead World é aquele tipo raro de disco que pode receber o predicado de sublime sem o menor receio. Tudo nele soa inteligente, coeso, forte, polido, perfeito. Mais do que a consolidação do belo trabalho que o Nevermore já vinha fazendo desde seu debut homônimo, lançado em 1995, Dead Heart in a Dead World é um disco revolucionário, no duplo sentido que esse termo carrega: um retorno aos sons primários do grupo (e de seu antecessor de morte prematura, o Sanctuary) e um passo a frente em direção a um som moderno, com inclusão de guitarras de sete cordas, afinações incomuns e grooves até então não experimentados. Tudo isso belamente produzido pelo fundamental Andy Sneap, que ajudou a fundir com maestria elementos de technical thrash metal, doom, progressivo e passagens acústicas de beleza inegável.


Apesar de não ser um álbum assumidamente conceitual, Dead Heart In a Dead World repisa em praticamente todas suas letras o tema da ausência de sentido e da solidão do mundo contemporâneo, pontualmente interrompidas (ou suplementadas, quem sabe?) por críticas ao sistema político e prisional americano (Inside Four Walls) e preocupações ambientais que se metaforizam em reflexões existenciais (The River Dragon Has Come, sobre o rio chinês Yangtze, que está sendo represado na maior obra chinesa desde a grande muralha e que somente no século XX matou milhões de pessoas através de enchentes).



Warrel Dane continua o crítico niilista e melancólico da condição humana que sempre se mostrou e sua voz consegue transmitir bem a essência (ou ausência) que caracterizam esse niilismo. Não é a toa que a banda “desconstruiu” (com todas as conseqüências que esse termo pode trazer) a clássica The Sound of Silence, composição de 1964, saída da pena do talentoso Paul Simon. A banda se apropriou do conceito da canção, escrita numa tentativa de capturar o trauma da nação americana após o assassinato do Presidente John Kennedy (novembro de 1963) e incorporou o silêncio existencial que ela descreve ao niilismo que perpassa todo o trabalho. Ainda que divida opiniões mesmo entre os fãs não há como negar que ela parece ter sido composta para o álbum, resumindo e ao mesmo tempo fazendo parte belamente de seu conceito.


Nessa linha, Dane continua “jogando na cara” o fastio de nossa condição atual. Em Engines of Hate, uma das mais agressivas canções do álbum, ele retrata a alienação presente na sociedade industrial, na nossa conversão em “suínos sagrados” pelas linhas de produção. Como diria Hannah Arendt a transformação do Homo Sapiens no Animal Laborans. O eu-lírico da canção pergunta se pode ser nosso “demônio pessoal”, uma óbvia e pervertida referência ao Personal Jesus do Depeche Mode, e um resgate da “ética” que envolvia as figuras demoníacas na literatura do final da modernidade, em que Satã só “tenta com a verdade” (Milton, Paraíso Perdido), ou o demônio que nos revela a verdade sobre o Eterno Retorno (O mais pesado dos pesos) em A Gaia Ciência de Friedrich Nietzsche.


As duas últimas canções do álbum explicitam ainda mais esse conceito. Em Believe in Nothing, Dane nos mostra a inutilidade da crença em um sagrado metafísico diante da nossa comprovada finitude. Camusianamente ele canta:




Nothing is sacred when no one is saved
Nothing's forever so count your days
Nothing is final and no one is real
Pray for tomorrow and find your empty still


(Nada é sagrado quando nada está a salvo
Nada é eterno, então conte seus dias,
Nada é definitivo e ninguém é real,

Reze pelo amanhã e encontre seu vazio)



E na faixa título transforma o niilismo em “profissão de fé”, convertendo a negação na própria solução para o vazio. Um refrão de heresia violenta transmuta-se em afirmação pessoal:


Burn your gods and kill the king
Subjugate your suffering
Dead heart in a dead world


(Queime seus deuses e mate o Rei,
Subjugue seu sofrimento,
Coração morto em um mundo morto)


Enfim, uma obra-prima, dessas de audição obrigatória. Numa época de discos cada vez mais superficiais e de fácil “digestão”, ou mesmo que evocam uma profundidade aparente, o Nevermore ousou criar um álbum (ma)duro, crítico, profundo e musicalmente instigante. Não acredite em nada além disso.




Ficha técnica:


Faixas:


Narcosynthesis - 5:31
We Disintegrate - 5:11
Inside Four Walls - 4:39
Evolution 169 - 5:51
The River Dragon Has Come - 5:05
The Heart Collector - 5:55
Engines of Hate - 4:42
The Sound of Silence (Simon & Garfunkel cover) - 5:13
Insignificant - 4:56
Believe in Nothing - 4:21
Dead Heart in a Dead World - 5:08


Line-up e técnica:


Warrel Dane - vocal
Jeff Loomis - guitarra
Jim Sheppard - baixo
Van Williams - bateria
Andy Sneap - produção, engenharia, mixagem, masterização
Justin Leeah - engenharia adicional
Bobby Torres - engenharia adicional
Travis Smith - ilustração, design, layout
Karen Mason-Blair - fotografia da banda
Neil Sussman - representação legal

Nevermore regrava Doors

Que Warrel Dane e companhia são fãs declarados do rock e da psicodelia da década de 60 não há como negar. Com sua primeira banda, o Serpent's Knight, Dane regravou White Rabbit, sucesso lisérgico do Jefferson Airplane. Como o cover só foi lançado na única e obscura demo da banda Dane o refez no primeiro disco do Sanctuary, Refuge Denied (produzido por Dave Mustaine). Com o Nevermore Dane regravou Sound of Silence da dupla folk Simon e Garfunkel, recriando literalmente essa canção que tem uma das letras mais incríveis de todos os tempos. Ainda de Paul Simon Dane regrava Patterns, em seu disco solo "Praises to the war machine", essa uma das mais psicodélicas composições do genial baixinho. Agora, segundo o baterista Van Williams, o Nevermore está trabalhando em outras duas versões que devem entrar no seu praticamente finalizado novo álbum "The Obsidian Conspiracy". A primeira é uma versão para Transmission, sucesso de The Tea Party, de 1997, mas que mantém o mesmo clima lisérgico que inspirou o nome da banda (retirado de uma festa em que os poetas da geração beat se reuniram pra fumar haxixe). A outra versão é para Crystal Ship, dos Doors, uma das mais belas composições de Morrison e seus companheiros, que fala sobre uma lenda nórdica. A banda já está encerrando as gravações do instrumental e a mixagem ficará novamente a cargo de Andy Sneap.
Para ouvir as versões originais clique no nome das músicas.